quarta-feira, 15 de abril de 2009

Coisas muito boas


Tradições gastronómicas do Carnaval e da Páscoa em Freixo

Ao contrário do que acontece com outros feriados e celebrações religiosas, a Páscoa não tem uma data fixa. Assim, no Concílio de Niceia (séc. IV d.C.) convencionou-se que a data da Páscoa fosse calculada em função da Lua, entre os dias 22 de Março e 25 de Abril. Deste modo, o domingo de Páscoa é marcado para a primeira Lua Cheia depois do início da Primavera. Sendo que a Primavera, este ano, se inicia a 20 de Março, a Lua Cheia determina que a Semana Santa se celebre entre 5 (Domingo de Ramos) e 12 de Abril (Domingo de Páscoa).
O início destas celebrações começa a seguir ao dia de Carnaval. Neste dia de folia, os crentes celebram a ocasião com uma refeição típica da nossa região, que é um cozido só à base de carne de porco. É confeccionado com o postorelho, os pés e alguns enchidos, como o salpicão de ossos. No dia seguinte, Quarta-feira de cinzas, não se pode comer qualquer tipo de carne, só peixe. Estamos no início dos quarenta dias que antecedem o Domingo de Páscoa, ou seja, a Quaresma, que para os cristãos é um período de oração, penitência e (alguma) abstinência, embora, hoje em dia, os portugueses não sejam muito rigorosos na observância destas práticas, pelo menos em comparação com os de antigamente. A título de exemplo, no passado, durante a Quaresma, havia a total proibição de ingestão de alimentos de origem animal.
A Páscoa é a festa mais importante do mundo cristão, uma vez que se celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ao contrário do que possamos pensar, a Páscoa é muito mais marcante do que o próprio Natal, já que o acontecimento determinante para o mundo cristão é celebrado na Páscoa: a ressurreição de Jesus.
A Páscoa que se celebra nos dias de hoje pouco ou nada tem a ver com a que era inicialmente celebrada tendo sido deturpada ao longo do tempo, sobretudo com a introdução de inúmeros rituais de origem pagã.
A Páscoa em Freixo de Espada à Cinta é uma época característica de presentes cerimoniais, sobretudo de índole alimentar, e os presentes da Páscoa levam o nome genérico de «folares».
O rio Douro marca o limite da difusão de um tipo de folar “empada”. Freixo de Espada à Cinta, situado em Trás-os-Montes, não deixa de ter também a sua tradição da empada. É uma massa normal, feita com farinha, ovos, leite, manteiga e azeite, que encerra pedaços de carne de porco, presunto e rodelas de salpicão, cozidos dentro de massa, que junto deles fica mais tenra com a gordura que deles se desprende. Há, ainda, uma empada que também contempla o azeite como ingrediente, sendo também muito apreciada. Tal como a anterior, também é enriquecida com carne. Somos a única zona de Trás-os-Montes em que as empadas são achatadas e rectangulares. As empadas em Freixo são feitas no forno onde normalmente se coze o pão. E muito próximo ao domingo de Páscoa.
Além de fazer as empadas, os Freixenistas aproveitavam o forno a lenha para fazerem os bolos dormidos, os matrafões e os fidalguinhos, que também são bolos tradicionais da Páscoa.
Para as refeições de domingo de Páscoa, qualquer pessoa tem um bocadinho de cabrito para assar no forno.
A partir dos anos cinquenta, criou-se o hábito de, na segunda-feira de Páscoa, se ir comer o folar para a Matança, sobretudo desde que as obras da barragem espanhola do Saltinho (Salto) se iniciaram. Chama-se a isto desfazer o folar. Assim, aproveitando o bom tempo que normalmente se faz sentir, de posse de uma boa merenda (antigamente, mais na Matança, hoje, mais na Congida) as gentes de Freixo vão comer ao ar livre. O repasto é constituído por carnes assadas, não faltando o cabrito, mas, desta vez, não assado no forno, mas sim na brasa, muitas variedades de sobremesas e bebidas. É um dia de folia e só termina ao cair da noite. Foi assim que nasceu o feriado municipal, até porque ninguém ficava em casa....
Elisabete Louças

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